
A NEAR Protocol atingiu aproximadamente 42 milhões de usuários ativos mensais.

Processou 1 milhão de transações por segundo em benchmark público, reduziu a inflação do token pela metade, lançou uma camada cross-chain que já movimentou mais de US$ 13 bilhões, ativou governança on-chain e se tornou notícia em conferências de IA ao lado de Nvidia.

E o token caiu até 70% do pico no mesmo período.

Esse paradoxo é o ponto de partida honesto para entender a NEAR.
Raramente um projeto acumula tantos avanços técnicos reais enquanto decepciona quem investiu olhando para o preço. Antes de entender o porquê, é preciso entender o que a NEAR é de verdade, e por que ela foi construída. 🖖👇
1. O que é a NEAR e por que nasceu de IA, não o contrário?
A maioria das blockchains foi criada por engenheiros de sistemas distribuídos que queriam descentralizar pagamentos ou contratos.

A NEAR tem uma origem diferente.
Illia Polosukhin, cofundador da NEAR, trabalhou no Google Brain, e foi um dos autores do paper Attention Is All You Need, a pesquisa que deu origem à arquitetura Transformer, a mesma que hoje alimenta o ChatGPT, o Gemini e praticamente todos os grandes modelos de linguagem do mundo.
Alexander Skidanov, o outro cofundador, vinha de sistemas de alta performance na Microsoft.
Antes de construir uma blockchain, eles estavam construindo ferramentas de IA que precisavam realizar pagamentos autônomos, coordenar agentes e registrar ações de forma verificável.
As blockchains existentes em 2018 não conseguiam fazer isso com a eficiência necessária. A solução foi construir uma do zero.
Isso importa porque a NEAR não "entrou na onda" de IA. A IA veio primeiro. A blockchain foi a consequência.

2. Como funciona por baixo: Nightshade, sharding e o que isso significa na prática
A maioria das blockchains processa transações em sequência, numa fila única.
Isso cria o gargalo clássico: mais usuários = rede mais lenta e mais cara.

A solução da NEAR para esse problema é o Nightshade, seu sistema de sharding dinâmico.
O que é sharding
Sharding divide a rede em múltiplos fragmentos paralelos (shards), cada um processando uma fatia das transações simultaneamente.

Em vez de uma fila, há várias faixas de rodagem ao mesmo tempo e o sistema pode abrir novas faixas conforme a demanda cresce.
O estado atual da rede:
9 shards ativos no mainnet (eram 6 em 2024, 8 no início de 2025)
600ms de tempo de bloco, com finalidade em 1,2 segundo
Média de ~80 TPS no uso diário; picos de mais de 4.000 TPS em testes de carga
1 milhão de TPS atingido em benchmark público em dezembro de 2025, com código real e hardware acessível
100% de uptime desde o lançamento do mainnet em 2020
O Nightshade 2.0, lançado em maio de 2025, adicionou validação sem estado (stateless validation): os validadores não precisam mais armazenar o estado completo de cada shard, tornando o sistema mais eficiente e mais fácil de escalar.
O próximo passo é o resharding dinâmico, que permitirá que os shards se dividam ou se fundam automaticamente conforme a carga da rede, sem intervenção manual.
Por que isso importa na prática
O Ethereum abandonou sua própria estratégia de sharding para apostar em rollups (Layer 2). A NEAR manteve o caminho e está colhendo os frutos técnicos.
A diferença filosófica é relevante: NEAR quer que a complexidade fique invisível para o desenvolvedor, sem exigir que aplicações sejam construídas em cima de camadas adicionais.
Para o usuário final, o resultado prático é: transações rápidas (~600ms), taxas mínimas (frações de centavo) e suporte a linguagens populares como Rust e JavaScript, o que reduz a barreira de entrada para desenvolvedores.

3. Ecossistema e adoção
Os números de adoção

41,8 milhões de usuários ativos mensais (média semanal dos últimos 3 anos) — pico de 46M registrado em maio de 2025
15,1 milhões de usuários ativos semanais
2,4 milhões de usuários ativos diários
447 validadores ativos na rede
TPS real médio: 38,5 — bem abaixo dos benchmarks de laboratório, mas consistente com uso orgânico
Taxa mediana por transação: US$ 0,00013 — praticamente zero para o usuário final
Supply circulante: 1,3 bilhão de NEAR
Market cap: US$ 1,6 bilhão
Stablecoin supply no ecossistema: US$ 103 milhões
O que está funcionando
A NEAR tem tração real em aplicações que precisam de alto throughput e baixo custo: jogos, redes sociais descentralizadas e, mais recentemente, agentes de IA autônomos.
O ecossistema de DeFi é menor do que o de Ethereum ou Solana, mas cresceu 101% em volume de DEX no Q1 2025.
O NEAR também é carbono neutro, um ponto de diferenciação crescente para investidores institucionais com critérios ESG.
O número que expõe a tensão
O Token Terminal mostra o quadro financeiro com clareza: a NEAR gerou US$ 43,1 milhões em fees e US$ 14,6 milhões em receita ao longo dos últimos 3 anos, mas gastou US$ 338,4 milhões em token incentives (emissão para validadores) no mesmo período.
O resultado: earnings de -US$ 323,8 milhões. A rede ainda subsidia sua própria segurança em escala muito maior do que o que arrecada.
O ARPU (receita média por usuário) é de US$ 0,00144, praticamente zero.
Com 41,8 milhões de usuários mensais, a receita real capturada pelo protocolo é irrisória. É o retrato de uma rede com enorme adoção de uso leve, mas sem monetização proporcional ainda.
O que ainda não saiu do papel
A adoção de usuários é real, mas grande parte desse tráfego vem de aplicações simples e de baixo valor agregado.
O número de core developers caiu de ~100 em 2023 para ~53 atualmente, tendência que merece atenção.
A narrativa de IA, por mais fundamentada que seja, ainda depende de adoção por desenvolvedores de agentes autônomos em escala comercial.

4. Competidores: Solana, Ethereum, Sui e o campo de batalha real
O mercado de mindshare entre blockchains Layer 1 em 2025 foi dominado por:
Blockchain | Mindshare 2025 |
|---|---|
Solana | 26,79% |
Base | 13,94% |
Ethereum | 13,43% |
Sui | 11,77% |
BNB Chain | 9,05% |
NEAR | não aparece no top 20 |
A NEAR não está nessa lista, o que resume bem o problema de narrativa do projeto.

5. Histórico de preço e o paradoxo de 2025
A linha do tempo

2020 — Lançamento: NEAR abre abaixo de US$ 1, pouco interesse do mercado.
2021 — Bull market: O token sobe junto com o mercado, chegando a US$ 14+ no fim do ano.
Janeiro de 2022 — ATH: US$ 20,44. O pico coincidiu com o topo geral do mercado de cripto. Nada de específico da NEAR justificava aquele nível — foi euforia macro.
2022 — Crash: Inflação global, aumento de juros, FTX, Terra/LUNA, Three Arrows. A NEAR caiu junto com tudo — perdeu mais de 90% do ATH, chegando a US$ 1,23 no fim do ano.
2023 — Lateral: O mercado se recuperou devagar. A NEAR foi de US$ 1,27 para US$ 3,64 — alta de 180%, mas sem destaque frente aos pares.
2024 — Recuperação parcial: Atingiu US$ 8,88 em março de 2024, impulsionada pela narrativa de IA (presença da NEAR em conferência da Nvidia com Polosukhin falando sobre Transformers). O token chegou a dobrar de valor em uma semana. Depois devolveu boa parte dos ganhos, encerrando o ano em torno de US$ 4,89.
2025 — O paradoxo: Ano tecnicamente excepcional. 46 milhões de usuários. Nightshade 2.0. NEAR Intents com bilhões em volume. Halving implementado. Governança on-chain.
E o token oscilou entre US$ 1,52 e US$ 3,40 durante quase todo o ano, enquanto Bitcoin e várias altcoins subiram forte. Em outubro de 2025, um flash crash geral de cripto arrastou o NEAR para baixo. No início de 2026, o token estava próximo de US$ 1,30, mais de 93% abaixo do ATH de 2022.
Por que o preço não acompanhou os fundamentos?
Há pelo menos quatro razões:
1. Falta de narrativa de mercado. A NEAR não domina nenhuma categoria perceptível para o investidor médio. Não é "a blockchain dos memecoins" (Solana). Não é "a blockchain do DeFi" (Ethereum). Não é "a blockchain dos jogos" (Sui). A narrativa de IA é real, mas ainda abstrata para quem compra token.
2. Baixo TVL em DeFi. Investidores usam TVL como proxy de utilidade financeira. US$ 218 milhões é modesto. Sem capital significativo travado no ecossistema, a demanda estrutural pelo token é fraca.

3. Competição que rouba narrativa. Virtuals Protocol e outros tokens "de IA" performaram muito melhor em 2025, desviando capital da NEAR mesmo entre os que acreditam na tese de IA + blockchain.
4. Emissão contínua. Com inflação de 5% (antes do halving) e queimas mínimas, havia pressão estrutural de venda. O halving ajuda, mas o efeito ainda está sendo absorvido pelo mercado.
O nível atual
Em março de 2026, o NEAR negocia em torno de US$ 1,25, com market cap de ~US$ 1,5 bilhão e ranking por volta de #51.
Tecnicamente em zona de sobrevenda, abaixo de todas as médias móveis relevantes.
O RSI de 14 dias estava em torno de 27, território de oversold.

O que funciona, o que não saiu do papel e os gatilhos reais
A NEAR Tem 41,8 milhões de usuários ativos mensais, tecnologia de sharding verificada publicamente e o NEAR Intents como produto real com mais de US$ 13 bilhões em volume.
E mesmo assim, o token está 93% abaixo do ATH… os core developers caíram de 100 para 53, e os earnings acumulam -US$ 323,8 milhões nos últimos três anos.
Esse é o retrato honesto da NEAR hoje: fundamentos técnicos excepcionais convivendo com monetização quase zero, queda de desenvolvedores e invisibilidade de narrativa num mercado que premia quem aparece.
O que funciona: sharding entre os mais avançados do setor, Intents com tração real, base de usuários genuína, fundadores irreplicáveis, supply praticamente todo desbloqueado e taxa mediana de US$ 0,00013 por transação.
O que não saiu do papel: a tese de IA ainda não virou receita verificável, o ARPU de US$ 0,00144 mostra que 41 milhões de usuários movem pouco valor real, e o ecossistema DeFi segue raso demais para sustentar demanda estrutural pelo token.
Os gatilhos reais: crescimento de volume no Intents até a meta de US$ 10 bilhões semanais, adoção concreta de agentes de IA usando a NEAR como camada de liquidação, e um ciclo de mercado que finalmente olhe para fundamentos, não só para narrativa.
O paradoxo pode se resolver. Mas por enquanto, a NEAR ainda está esperando o mercado chegar onde ela já está… E você, ainda lembrava deste token?

