Hoje vamos conhecer a Spectra, um projeto que vem chamando atenção dentro do nicho de finanças descentralizadas, atuando com algo ainda mais específico: derivativos de taxas de juros.

Parece complicado? Já já isso vai fazer sentido.

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O que a Spectra faz (e por que isso é interessante)

A Spectra permite que você separe seu investimento em duas partes:

  1. O principal — ou seja, o valor original que você colocou.

  2. O yield futuro — o rendimento que aquele valor vai gerar ao longo do tempo.

Essas duas partes viram tokens diferentes.

O resultado?

Você pode negociar esses tokens de forma independente, como se fossem dois ativos distintos.

Quer um exemplo prático?

Suponha que você investiu 1.000 USDC em uma plataforma DeFi.

Em vez de esperar passivamente os rendimentos chegarem ao longo dos meses, você pode usar a Spectra para tokenizar o futuro: vender esse yield agora para alguém que aposta que os juros vão subir, e usar o dinheiro imediatamente como quiser.

É como adiantar um pagamento — só que no mundo cripto, com total liberdade.

Além disso, a plataforma permite que você trave uma taxa de juros fixa, o que é algo raro dentro do ambiente DeFi, onde as taxas geralmente variam o tempo todo.

Isso dá mais previsibilidade para quem quer fazer planejamentos financeiros mais estáveis, mesmo usando criptoativos.

Esse tipo de funcionalidade abre portas para estratégias mais interessantes.

O nicho da Spectra: DeFi com foco em rendimento

Como já deu pra perceber, a Spectra faz parte do ecossistema DeFi.

Por sua vez, está em expansão e atualmente opera em redes como Ethereum, Polygon e, mais recentemente, na Base — uma blockchain de segunda camada construída sobre a Ethereum, que oferece transações mais baratas e rápidas.

A escolha da Base é estratégica, já que ela vem ganhando destaque como uma das redes com maior atividade, especialmente após o apoio da Coinbase, uma das maiores exchanges do mundo.

Ou seja, a Spectra não está apenas criando uma solução inovadora, mas também se posicionando em ecossistemas com grande potencial de crescimento.

Da festa do vinho ao mercado global: a história por trás da Spectra

Agora que você já entendeu o que o projeto faz, vamos dar um passo atrás e olhar para a origem dessa ideia — que, curiosamente, nasceu em um ambiente nada técnico: uma festa.

Bom, pelo menos foi o relato que encontramos, será que é verdade? Fica a curiosidade kkkkkk.

Sim, foi em uma celebração regada a vinho que os fundadores Antoine Mouran e Gaspard Peduzzi — dois cientistas da computação formados na renomada EPFL, na Suíça — começaram a conversar sobre finanças descentralizadas e tiveram o insight: “E se a gente pudesse tokenizar rendimentos futuros?”

O nome inicial do projeto, APWine, foi uma brincadeira com essa origem etílica: “Advanced Principal and Yield Wine”. Mas por trás do nome descontraído, havia uma ideia sólida — e muita vontade de inovar.

Eles começaram a trabalhar no protocolo em agosto de 2020, e ainda naquele ano conseguiram uma rodada de investimento inicial de US$ 50 mil.

Em poucos meses, o time já havia colocado duas versões alpha em testnet no ar, mostrando que a ideia era séria.

A evolução foi rápida:

  • Fevereiro de 2021: versão beta na Ethereum Mainnet.

  • Março de 2021: lançamento da versão na rede Polygon.

  • Dezembro de 2021: protocolo operacional também na Ethereum, com um airdrop de 1,18% dos tokens para os primeiros usuários da testnet.

A Spectra atraiu investidores desde cedo.

Em 2021, levantou US$ 1 milhão em uma rodada com apoio da Delphi Ventures, e em novembro de 2022, mais US$ 2,6 milhões foram aportados pela Greenfield Capital, uma gestora europeia especializada em criptomoedas.

Mas o grande marco veio em julho de 2023, com o rebranding oficial de APWine para Spectra — uma nova fase, com mais maturidade, uma identidade renovada e planos de expansão para novas redes e funcionalidades.

E é sobre essa nova etapa que vamos falar a seguir.

Como a Spectra funciona?

Pra entender de verdade como a Spectra funciona, a gente precisa dar um passo atrás e falar sobre um conceito básico do DeFi: os chamados Interest Bearing Tokens, ou simplesmente IBTs.

O que são Interest Bearing Tokens?

Vamos imaginar o seguinte: você resolve depositar USDC (uma stablecoin pareada ao dólar) na Aave, que é uma plataforma DeFi de empréstimos.

Quando você faz esse depósito, a Aave te dá um “recibo digital” chamado aUSDC.

Esse aUSDC é o que chamamos de Interest Bearing Token — um token que representa sua posição dentro da plataforma e, mais importante, acumula os juros que você tem direito a receber.

Ou seja, enquanto você segura o aUSDC na carteira, ele vai rendendo automaticamente.

Esse modelo é comum em várias plataformas DeFi, e a Spectra trabalha exatamente em cima desse tipo de token.

Mas por que isso importa?

Porque os rendimentos (ou yields) desses IBTs não são fixos.

A taxa de juros que você vê hoje pode mudar amanhã. Se o mercado estiver aquecido, o yield pode subir.

Se houver menos demanda, ele pode cair.

Por exemplo, hoje você pode ver um APY (taxa anual) de 10% na Aave ao depositar USDC, mas amanhã essa taxa pode cair para 6% ou até subir para 12%.

Tudo depende da oferta e demanda do momento.

E é aí que entra a Spectra com uma proposta interessante: transformar esse rendimento incerto em algo negociável e previsível.

O que a Spectra permite fazer?

Assim como a Pendle, a Spectra permite que você tokenize o seu IBT.

Em outras palavras, ela transforma esse token com rendimento variável (como o aUSDC) em dois tokens separados:

1. Principal Token (PT)

  • Representa o valor original depositado.

  • Pode ser resgatado 1:1 no vencimento (sem risco de perder o valor principal).

  • É um token padrão ERC-20, ou seja, transferível e negociável livremente.

2. Yield Token (YT)

  • Representa o direito aos rendimentos futuros daquele depósito.

  • Vai acumulando yield enquanto está ativo.

  • Com o tempo, seu valor vai caindo até chegar a zero na data de vencimento.

  • Também é um token ERC-20, ou seja, você pode vendê-lo, trocá-lo ou colocar em uma pool.

Essa divisão é o que torna a Spectra tão versátil e cheia de possibilidades estratégicas.

O que dá pra fazer com esse token?

A partir dessa separação, você pode usar a Spectra de várias formas, dependendo do seu perfil:

1. Travar um yield fixo com PT

Se você quer garantir uma taxa de rendimento hoje, você pode negociar apenas o Principal Token (PT).

Como ele é vendido com desconto, você acaba fixando um rendimento que só vai se realizar no vencimento.

É uma forma de transformar um yield variável em uma taxa previsível.

2. Especular com YT (apostando na alta dos juros)

Se você acha que os rendimentos futuros vão subir, pode comprar só os Yield Tokens (YT).

Isso é como uma “aposta”: você está comprando o direito aos juros, sem precisar estar exposto ao ativo principal.

Quanto maior for o yield no período, maior o valor que você vai extrair desses YTs.

Mas atenção: se o yield cair, seu retorno também diminui.

Além disso, como o YT tem vencimento, seu valor vai naturalmente caindo com o tempo — o famoso efeito decay.

3. Negociar os YTs (trade de yields)

Se você comprou YTs quando os juros estavam baixos e, depois, o mercado aqueceu e os juros subiram, o valor desses tokens vai aumentar.

Você pode revender com lucro, sem nem precisar esperar o vencimento.

É como fazer trade, só que com juros.

4. Fornecer liquidez e ganhar com isso

A Spectra também permite que você forneça liquidez para pools compostas de PTs e YTs.

Nesses casos, você ganha com:

  • O rendimento dos próprios tokens.

  • As taxas de transação da pool.

Se você já usou plataformas como Uniswap ou Curve, vai se sentir em casa aqui.

5. Estratégias externas (como farmar airdrops)

E tem mais: como acontece em outros protocolos (ex: Pendle), você pode usar a Spectra como parte de estratégias maiores, como a caça de airdrops.

Muitos usuários movimentam capital nesses protocolos justamente para se qualificar para futuras distribuições de tokens — e isso tem se mostrado uma tática recorrente no ecossistema DeFi.

O momento da narrativa DeFi (e o calor do DEFAI) - E como isso impacta na spectra.

A narrativa de DeFi voltou a ganhar força no mercado, acompanhando de perto o desempenho médio de outras grandes tendências do universo cripto.

E é justamente pelo crescimento da categoria da Spectra, o DeFai, que se faz importante analisar os dados:

Depois de um tempo mais morno, o setor vem mostrando sinais de aquecimento — e há alguns bons motivos por trás desse otimismo.

Um dos principais catalisadores é o cenário regulatório nos Estados Unidos.

Com a entrada de um novo governo no radar, aumentam as expectativas de uma abordagem mais flexível e construtiva para as finanças descentralizadas.

Se essa abertura regulatória realmente se confirmar, ela pode atrair novos investidores, trazer mais legitimidade para o setor e, claro, impulsionar ainda mais os protocolos que estão bem posicionados nesse ecossistema — como a Spectra.

Mas não é só isso.

O setor também vem pegando carona em uma narrativa que explodiu recentemente: o DEFAI.

Se você não ouviu falar ainda, trata-se de um “apelido” para projetos DeFi que estão sendo impulsionados por iniciativas ligadas à Ásia, especialmente à China.

A sigla é quase um jogo de palavras entre DeFi e AI (inteligência artificial), mas com o toque regional do “FAI” — um acrônimo que também remete ao “Finance Artificial Intelligence”.

Essa mistura de DeFi com inteligência artificial, estratégias orientais e um toque de especulação geopolítica colocou o tema em alta, atraindo olhares e liquidez para o setor como um todo.

E nesse cenário, projetos como a Spectra — que já vinham construindo soluções robustas, mas ainda estavam “fora do radar” — têm a chance de surfar essa onda, se destacando entre os protocolos que unem inovação com utilidade real.

veSPECTRA: O bilhete VIP dentro da Spectra

No mundo DeFi, os tokens de governança geralmente funcionam como uma chave de acesso para os usuários que querem ter voz dentro do protocolo.

No caso da Spectra, essa chave se chama veSPECTRA — um token que só pode ser obtido ao travar SPECTRA dentro do protocolo.

Mas por que alguém faria isso? Simples: além de ganhar poder de voto na governança, quem entra nesse jogo recebe uma fatia dos lucros do protocolo.

Ou seja, o veSPECTRA funciona como um bilhete VIP que dá acesso tanto ao controle das decisões quanto à participação nos rendimentos.

O que você ganha ao segurar veSPECTRA?

Ganhos diretos do protocolo

  • Quem possui veSPECTRA recebe 3% do yield gerado pelos Yield Tokens (YTs).

  • Além disso, 80% da receita total do protocolo vai direto para os holders de veSPECTRA.

Voto na governança

  • Com veSPECTRA, você pode votar em propostas que definem os rumos da Spectra.

  • Mais do que isso, influencia para onde vão as emissões de SPECTRA, ou seja, pode impactar diretamente quais pools terão mais incentivos.

Isso significa que, quanto mais veSPECTRA você tiver, mais dinheiro cai na sua conta e mais peso sua opinião tem nas decisões da plataforma.

O jogo do locking: por que travar SPECTRA?

Aqui entra a parte interessante: para conseguir veSPECTRA, você precisa travar seus tokens SPECTRA por um tempo determinado. Esse sistema segue um modelo chamado ve(3,3), inspirado em plataformas como Velodrome e Aerodrome.

A lógica é a seguinte:

  • Quanto mais tempo você travar SPECTRA, mais veSPECTRA recebe.

  • O período máximo de locking é de 4 anos.

  • Enquanto os tokens estiverem travados, você continua acumulando os benefícios do protocolo.

Esse sistema incentiva comprometimento de longo prazo, porque reduz a oferta circulante do token e fortalece a governança, deixando o controle do protocolo nas mãos dos usuários mais envolvidos.

Tokenomics da Spectra: Transparência ou uma Caixa Preta?

Nesse caso é uma caixa preta que não foi encontrada… É bem complicado, sendo direto ao ponto.

Quando se analisa um projeto DeFi, o tokenomics é um dos fatores mais importantes para entender se ele é sustentável ou se pode ter problemas futuros.

No caso da Spectra, há pontos que merecem um olhar mais atento — e, sinceramente, algumas questões são no mínimo obscuras.

1. A distribuição dos tokens: o que sabemos (e o que não sabemos)

A única referência visual que temos sobre a distribuição do token é um gráfico do antigo APW.

Isso já é um problema por si só. O site oficial, o whitepaper e plataformas como Cryptorank ou CoinGecko não apresentam um gráfico atualizado do SPECTRA.

O que esse gráfico antigo mostra?

  • 56% para a comunidade (incentivos de liquidez, airdrops, ecossistema).

  • 28% para a equipe.

  • 8.26% para investidores (seed & pre-seed).

  • 7% para Liquidity Bootstrapping.

  • 0.68% para Advisors.

Mas será que essa estrutura se manteve? Não há qualquer confirmação oficial da equipe da Spectra. E isso é um problema, pois não sabemos se houve alterações na alocação de tokens para a equipe, investidores ou incentivos de liquidez.

Se um projeto não deixa clara sua distribuição, como os usuários podem confiar que a liberação de tokens será feita de forma justa?

2. Emissões semanais: previsível ou diluição disfarçada?

A Spectra segue o mesmo cronograma de emissões do APW, o que significa que novos tokens entram no mercado toda semana.

A fórmula usada é:

onde i representa a semana, começando do zero em 19 de dezembro de 2024.

Com base nessa fórmula:

  • Nesta semana, a liberação de tokens será de aproximadamente 1,178,497 SPECTRA.

  • Isso representa 0,2% do supply total (512.823.160 tokens).

  • Esse número diminui a cada semana, mas segue acontecendo.

  • Após a semana 105, a emissão se estabiliza em 1,8% do total supply ao ano.

Até aqui, tudo parece relativamente normal.

Mas o que não está claro é com que frequência esses 1,8% serão distribuídos após a semana 105.

Sem essa informação, não dá para prever o impacto inflacionário no longo prazo.

Isso pode ser um problema porque, se essa emissão continuar alta, o token pode perder valor ao longo do tempo devido à diluição da oferta.

E sem uma explicação clara no whitepaper, o risco aumenta.

3. O mistério do max supply: quantos tokens ainda vão surgir?

Aqui vem um ponto ainda mais crítico: o total supply hoje é de 512.823.160 tokens, mas o max supply no CoinGecko é maior.

Ou seja, o código do contrato permite a criação de mais tokens no futuro, mas essa informação não está explicitada no whitepaper.

Isso levanta algumas perguntas importantes:

  • Quanto desse max supply já foi emitido?

  • Existe um teto definitivo para novas emissões ou o protocolo pode continuar gerando tokens indefinidamente?

  • Esses novos tokens vão para a comunidade, para os desenvolvedores ou para incentivos de liquidez?

Sem essas respostas, fica difícil confiar totalmente no modelo inflacionário do SPECTRA.

Conclusão: um modelo opaco e cheio de dúvidas

A falta de transparência no tokenomics da Spectra torna a análise do projeto complicada e arriscada.

Não há um gráfico atualizado da distribuição, as emissões semanais não têm um cronograma claro após a semana 105, e o fato de o max supply ser maior que o total supply atual sem explicação oficial é preocupante.

Se a equipe quiser atrair mais investidores e usuários de longo prazo, precisaria urgentemente esclarecer essas questões.

Enquanto isso não acontece, o risco de diluição e a incerteza sobre a distribuição dos tokens permanecem no ar.

Então, ainda que o projeto seja interessante, é importante ficar analisando seus tokenomics e buscar mais clareza no sentido de novas informações serem adicionadas.

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