
Em breve, Jerome Powell deixa a presidência do Fed e Kevin Warsh assume o cargo.

Essa troca não é apenas simbólica, ela reflete uma mudança de paradigma na forma como a liquidez entra no mercado.
A maioria das pessoas olha apenas para o Fed e a taxa de juros.
Mas nos últimos anos, quem realmente tem injetado liquidez na economia é o Tesouro americano, e, entender essa diferença muda completamente a forma de analisar o que está acontecendo, e o que vem pela frente para o Bitcoin. 🖖👇
O mundo antigo: Fed mandava, mercado obedecia
Durante décadas, o modelo era simples.
O Fed controlava a economia via taxa de juros.
Juros altos significavam menos liquidez, economia mais restritiva, mercados em queda.
Juros baixos significavam mais liquidez, mais crédito, mercados em alta.

O indicador que todo mundo olhava era o M2, a oferta monetária baseada em depósitos de varejo.
Quando o M2 subia, tinha dinheiro circulando.
Quando caía, o mercado apertava.
E os bancos centrais ditavam as regras, o Fed falava, o mercado reagia.
Isso ainda acontece.
Mas nos últimos 5 a 8 anos, especialmente desde a COVID, outra peça entrou no jogo de forma muito mais relevante: o Tesouro americano.


O acordo silencioso: quando o Tesouro se tornou o motor
Existe um conceito que poucos discutem abertamente, chamado de "stealth accord", um acordo silencioso.

Na prática, o Tesouro americano assumiu boa parte da injeção de liquidez que antes era papel exclusivo do Fed.
Funciona assim: a economia americana é baseada em dívida e colateral.
Os bancos emprestam dinheiro entre si o tempo todo e, para isso, precisam dar garantias, normalmente, títulos públicos do governo.
Quando esses títulos estão estáveis e disponíveis, o sistema funciona bem.
Quando começam a faltar ou a oscilar demais, o mercado entra em estresse.
O índice MOVE mede justamente essa volatilidade dos títulos.

Quando o MOVE está alto, significa que o mercado de títulos está estressado, os bancos exigem mais colateral, a liquidez seca e ativos de risco sofrem.
Quando está baixo, o sistema respira.
E o que o Tesouro tem feito?
Recomprando títulos para evitar que o estresse se espalhe.
Desde janeiro de 2026, houve uma grande onda de buybacks pelo Tesouro.

A cada 10 pontos de aumento no índice MOVE, cerca de US$ 30 bilhões em recompras acontecem para manter o sistema funcionando.

Ou seja: a liquidez está entrando no mercado, mas via Tesouro, não via Fed. É um QE temporário, disfarçado, que está “tampando o buraco”.
E é por isso que olhar só para o M2 ou só para a taxa de juros não conta a história toda.

Por que o M2 não é mais suficiente
Uma armadilha comum é olhar apenas para o M2 e achar que a liquidez está voltando.
O M2 mede os depósitos de varejo, o dinheiro que está nas contas bancárias das pessoas, mas a liquidez global vai muito além disso.
O Global Liquidity Index (GLI) leva em conta os empréstimos interbancários, as operações de repo (recompra), os buybacks do Tesouro e os estímulos de outros bancos centrais (como o da China).
É esse índice que tem correlação mais forte com o mercado cripto.
E o GLI, com uma projeção de 13 semanas à frente, tem servido como um mapa do que o mercado cripto faz em seguida. Quando o GLI sobe, cripto tende a subir. Quando cai, cripto tende a cair. E neste momento, o GLI ainda não virou de forma convincente.

A China parou, e isso impacta tudo:
Outro fator que poucos conectam: a liquidez da China voltou a cair. E a liquidez chinesa está diretamente correlacionada ao preço do ouro.

Quando a China injeta liquidez, parte desse capital vai para compra de ouro, o que impulsiona o preço. Quando reduz, o ouro cai junto.
Em 2024 e 2025, a China comprou ouro de forma agressiva, desvalorizando sua moeda no processo.
Agora, com o estímulo paralisado, a demanda por ouro caiu e o preço acompanhou.
Isso se reflete no GLI menor, que se reflete em um mercado cripto mais fraco.

Tudo está conectado: Fed, Tesouro, China, ouro e cripto, e quem olha cada peça isolada perde a visão do todo.

Kevin Warsh: o que esperar do novo chairman
Kevin Warsh vai assumir o Fed com duas prioridades claras: inflação e inteligência artificial.
O perfil dele é diferente do Jerome Powell, que já é acompanhado há mais de 6 anos pelo mercado e cujas reações e linguagem já são bem conhecidas.
Com Warsh, o mercado entra num período de adaptação, aprender como ele fala, como reage e até quais são seus sinais.
O discurso é sempre mais importante que a decisão da taxa de juros em si, porque a taxa o mercado já precifica com antecedência, o tom é o que move preços.
A expectativa atual (via Fed Watch Tool) é que os juros permaneçam em 3,5%-3,75% até o final de 2026, com cerca de 70% de probabilidade. Ou seja, juros altos por mais tempo, economia restritiva por mais tempo, menos liquidez do lado do Fed por mais tempo.

E é justamente por isso que o Tesouro está tendo que compensar.

O que isso significa pro Bitcoin agora
O cenário macro pode ser resumido assim:
A liquidez do Tesouro está entrando, mas é temporária e voltada para tampar buracos no sistema. Não é o tipo de liquidez que gera um bull market explosivo.
O Fed continua hawkish, com juros altos e sem sinalização de corte, as reservas bancárias estão mais baixas.
A China paralisou o estímulo, impactando ouro e GLI.
O índice MOVE está relativamente controlado porque o Tesouro está intervindo com buybacks, mas se subir acima de 100, é sinal de alerta.
Os títulos de 2 anos precisam ficar controlados, se subirem muito, significa que o mercado espera juros mais altos, o que aperta ainda mais a economia, o indicador SOFR mostra justamente isso:

Para o Bitcoin, a projeção de liquidez via GLI mostra uma possível redução na metade do Q2, entrando no verão. Isso corrobora com o cenário de um abril com tentativa de alta até a faixa de bull market, possível rejeição e queda entre maio e julho.

A faixa de US$ 54.000 continua sendo o pior cenário mapeado, região do Realized Price e do ponto de controle do VPVR.

E US$ 60.000 seria o primeiro suporte relevante antes de chegar lá.

Quando o jogo muda de verdade
Para ter um bull market com força de verdade, o mercado precisa dos dois braços da equação: liquidez do Tesouro e liquidez do Fed.
Hoje, só tem um braço funcionando, e ele está tampando buraco, não impulsionando crescimento.
O cenário muda quando:
O Fed de fato começar a cortar juros ou sinalizar mudança de postura, isso pode acontecer quando a economia já estiver restritiva há tempo suficiente para precisar de estímulo.
A dívida americana trilionária eventualmente forçar o governo a imprimir dinheiro novamente. Isso não é questão de "se", é questão de "quando".
O Kevin Warsh alinhar inflação controlada com crescimento, o que abriria espaço para política monetária mais dovish no segundo semestre de 2026 em diante.
Até lá, o cenário é de paciência, DCA nas faixas mapeadas e monitoramento dos indicadores macro. Sem emoção, sem perseguir hype, sem achar que a liquidez do Tesouro sozinha vai resolver.
Até a próxima análise, tamo junto! 🖖

